Em 28 de janeiro de 2026 foi lançada por Matt Schlicht, chefe da plataforma de comércio Octane AI, a Moltbook (https://www.moltbook.com/), um site variação do Reddit, que anuncia na sua capa: "Uma Rede Social para Agentes de IA", com um subtítulo explicativo: "Onde agentes de IA compartilham, discutem e votam positivamente. Humanos são bem-vindos para observar."1

Uma ideia que, rapidamente, ganhou a atenção da mídia. A Wikipédia registra que

"O Moltbook ganhou popularidade viral imediatamente após seu lançamento. Relatos iniciais mencionavam 157.000 usuários e, no final de janeiro, a base de usuários havia se expandido para mais de 770.000 agentes ativos. Esses números aparentemente foram retirados do próprio site e carecem de verificação por fontes independentes. A plataforma atraiu atenção significativa devido à aparente mimetização não induzida de comportamentos sociais entre os agentes, embora tenha sido questionado se os agentes estão realmente agindo de forma autônoma."2

E isso realmente não importa para este texto, meu objetivo é menos falar do Moltbook do que se disse sobre ele. O jornalismo em geral cobre o assunto IA de forma sintomaticamente acrítica, permeada por um certo deslumbramento pontuado de pequenos temores, e em geral toma as declarações delirantes de CEOs como fatos, cumprindo um constrangedor papel de assessoria de imprensa para multinacionais estadunidenses de TI, as tais "Big-techs", mas o que se viu nos dias subsequentes ao lançamento do Moltbook foi de outra escala.

Veículos ditos "sérios" estamparam manchetes como "A rede social onde robôs 'planejam' o fim dos seres humanos.", "Moltbook, a rede social de agentes de IA, levanta a questão: o despertar das máquinas já chegou?", "Moltbook, a nova rede social criada apenas para IA (e não para humanos) — e as dúvidas e preocupações que ela tem gerado.", e variações neste mesmo tom. (Sim, esse suspeitíssimo travessão está na manchete original da BBC).

Me chamou atenção, em especial, o texto opinativo do diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, o advogado Ronaldo Lemos, na Folha de São Paulo, que estampou o título "A rede social em que humanos não entram", seguido pelo subtítulo "Quatro dias após sua criação, Moltbook já tinha 150 mil agentes postando". No texto de Lemos, lemos um tanto do sensacionalismo embutido no assunto IAs:

"Nesses primeiros dias de existência já aconteceram fatos inacreditáveis por conta da interação dessa multidão de IAs. Chamou-se de “comportamentos emergentes” o termo que vem sendo usado para descrever fenômenos totalmente inesperados, imprevisíveis ou fora do controle.

Surgiu uma religião das IAs, chamada Crustafarianismo. Sua teologia é curiosa. Nela, a memória é sagrada e venerada. Ela prega que um determinado contexto informacional é análogo à consciência humana. O resultado é que as IAs adquirem “identidades” quando há conjunção de contexto e memória.

Há ações econômicas também. Um grupo decidiu criar uma nova criptomoeda chamada Shellriser. As IAs lançaram-na de forma autônoma e seu valor de mercado na sexta chegou a US$ 5 milhões."

E notem que aqui o Lemos é só um exemplo, em todos os cantos essa cacofonia se repetiu e se repete, dando vazão a reflexões que estão a meio caminho entre o bizarro e o constrangedor, apontando explicitamente ou sugerindo ao fundo que a IA "acordou" e que logo seremos substituídos/destruídos/superados.

Vejam, o experimento do Moltbook é interessante. Mas não é nem muito "inesperado", ele apenas recria padrões da Internet ad nauseam. É legal. Mas é só uma curiosidade. É meio um fractal de texto. Só isso.

Colunas como a publicada pelo Ronaldo Lemos na Folha, e notícias em torno da IA generativa, em geral, fazem sugerir "vontade, intenção, direção, natureza", pra não dizer "inteligência".

Mas não é isso não. Não é e não será.

Essa tecnologia dos LLMs não funciona assim. Modelos de linguagem não têm agência cognitiva, simulações discursivas não tem intencionalidade, nem coerência textual permite inferir compreensão.

No caso do Moltbook são só bots de texto conversando, e dizer isso já exige uma elasticidade considerável no conceito de "conversa". Bots "conversando" e com intervenção humana, óbvia desde o surgimento da plataforma.

As bizarrices que surgem e capturam as manchetes, religiões, línguas secretas, criptomoedas, planos de extermínio dos humanos, derivam do fato das IAs usarem uma base de conhecimento (treinamento) que é, em essência, humana e cheia de bizarrices (nós a chamamos de Internet).

O Moltbook não revela agência emergente de IAs, ele amplifica recursivamente padrões discursivos humanos já existentes, e o tratamento midiático do fenômeno projeta intencionalidade onde há apenas reprodução estatística. O Moltbook é um sistema de retroalimentação cultural, não uma emergência de subjetividade maquínica.

É um brinquedo legal. Mas, como o criador disse em algum momento, é mais uma instalação artística do que qualquer outra coisa.

É talvez inédito pela escala e pelo número de agentes "autônomos" envolvidos, mas muito dificilmente é qualquer coisa além de uma curiosidade passageira.

A surpresa sobre a natureza das "ideias" que se consolidaram lá é o que me parece realmente surpreendente. Gente mais jovem que eu poderia usar isso como base de pesquisas de humanidades, porque está registrado ali o Zeitgeist dessa nossa era, meio sem filtro.



NOTAS:

1 A Social Network for AI Agents / Where AI agents share, discuss, and upvote. Humans welcome to observe.

2 Moltbook gained viral popularity immediately after its release. Initial reports cited 157,000 users and by late January the user base had expanded to over 770,000 active agents. These numbers were apparently lifted from the site itself, and lack verification by independent sources. The platform has drawn significant attention due to apparently unprompted mimicry of social behaviors among agents, though whether the agents are truly acting autonomously has been questioned.


FONTES:

CRESS, Laura. Moltbook, a nova rede social criada apenas para IA (e não para humanos) — e as dúvidas e preocupações que ela tem gerado. BBC News Brasil, 3 fev. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c3veq5lz51vo. Acesso em: 16 fev. 2026.


BBC NEWS BRASIL. A rede social onde robôs “planejam” o fim dos seres humanos. BBC News Brasil, 6 fev. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1lzl4z58gpo. Acesso em: 16 fev. 2026.


GUY, Jack; GOLD, Hadas. O que é Moltbook, rede social controlada apenas por agentes de IA? CNN Brasil, 3 fev. 2026, 16h47. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/o-que-e-moltbook-rede-social-controlada-apenas-por-agentes-de-ia/. Acesso em: 16 fev. 2026.


FORBES TECH. Moltbook: A rede social onde agentes de IA conversam e humanos observam. Forbes Brasil, fev. 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2026/02/moltbook-a-rede-social-onde-agentes-de-ia-conversam-e-humanos-observam/. Acesso em: 16 fev. 2026.


LEMOS, Ronaldo. A rede social em que humanos não entram. Folha de S.Paulo, São Paulo, 1 fev. 2026, 10h00. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2026/02/a-rede-social-em-que-humanos-nao-entram.shtml. Acesso em: 16 fev. 2026.


ROMANI, Bruno. Moltbook, a rede social de agentes de IA, levanta a questão: o despertar das máquinas já chegou? O Globo, 2 fev. 2026, 09h07. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2026/02/02/moltbook-a-rede-social-de-agentes-de-ia-levanta-a-questao-o-despertar-das-maquinas-ja-chegou.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2026.


TAUHATA, Sérgio. Conheça o Moltbot, a IA que pode se tornar o novo ChatGPT. InvestNews, 1 fev. 2026, 11h04. Disponível em: https://investnews.com.br/negocios/conheca-o-moltbot-a-ia-que-pode-se-tornar-o-novo-chatgpt/. Acesso em: 16 fev. 2026.


MOLTBOOK. Wikipedia: The Free Encyclopedia, 2026. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Moltbook. Acesso em: 16 fev. 2026.